sábado, 13 de dezembro de 2014

Vontade de cravar um punhal naqueles seios durante tanto tempo tão disponíveis

Então Nadja me deixou. Um novo amor apareceu para a vulcânica, inigualável Nadja, e eis aqui
o velho amor despachado para… Me vem à cabeça uma música cantada por Kurt Cobain no triunfo do Nirvana em Nova York ( o Acústico da MTV): despachado para onde sopra o vento frio e o sol não brilha nunca. Where the cold Wind blows. (Tenho para mim que é a maior interpretação da história do rock, mas este não é o melhor espaço para comentar isso.)

Sob o risco de plagiar alguém (acho que a mim mesmo, na verdade), digo o seguinte. Entrar num relacionamento é como entrar num trem. Podem mudar as estações, mas o destino é sempre o mesmo. Tristeza, decepção, mágoa, adeus. O extraordinário é que nenhum de nós desiste de entrar no trem. É o que um grande frasista francês, La Rouchefoucauld (me digam, por favor, se estou fazendo citações demais; quando alguém chega ao ponto de citar sem convicção a si próprio é grave), chamava de triunfo da esperança sobre a experiência.

Tive fé cega em Nadja e mim. Acreditei que nada poderia nos separar. Ninguém neste mundo, ou em qualquer outro, teria esse poder. É o que eu presumia, em meu otimismo romântico. Éramos como Romeu e Julieta, John e Yoko, Liz e Burton: dois que formam um. (A frase é meio vaga, admito, mas foi a melhor que encontrei: dois que formam um.) Mas eis que… eis que o trem chegou a seu destino inescapável.

Tive raiva. Vontade de espremer aquele pescoço tão delicado. De cravar um punhal naqueles seios durante tanto tempo tão disponíveis. Confesso tudo isso. E confesso também que senti a tentação de dizer que ao ser enxotado do trem reagi com a fria elegância inglesa. Mas não posso mentir.

É muito bom sentir todas aquelas tentações sanguinolentas. Porque elas significam que foi bom. (Com Nadja não foi simplesmente bom. Foi o trem da minha vida, se me entendem.) E é ainda melhor não transformar as tentações em realidade. Porque a euforia efêmera do “justiçamento” cede lugar a um pesadelo de uma vida inteira. E, além do mais, se você suprime literalmente quem lhe deu um fora, você perde a oportunidade de dizer certas verdades que esqueceu de dizer. E a verdade é que a gente sempre termina um relacionamento sem dizer, por não nos ocorrer no tumulto do fim, verdades essenciais. E é preciso ter uma nova chance de dizê-las.

Alguma coisa de Nadja sempre estará em mim. Ou muita coisa. Você sempre desce do trem mais rico do que entrou. Li há pouco tempo um texto de Erica Jong (citando demais? Digam-me, por favor) em que ela falava de um namorado rústico que tivera num país remoto. O namorado rústico era casado e Erica escreveu uma frase que achei linda: eu preferia ser a mulher a cujos braços ele corria a ser a mulher de quem ele fugia.

Erica terminava dizendo que sempre que lhe vinha à mente a palavra sexo imediatamente lhe ocorria a imagem do namorado rústico. Nem sempre sexo é uma palavra comovente, mas a reflexão de Erica – oh, essa necessidade imperiosa de ser sincero – me deixou úmidos os olhos.

E então eu digo que sempre que alguém falar em paixão vou pensar em Nadja. E então peço licença para uma última citação.

Perdida, para sempre perdida, mas tão viva, tão linda, batendo os saltos na cidade da minha saudade.

Eu jamais conseguiria escrever uma frase tão linda como essa de Rubem Braga para Nadja.

Postado por Fabio Hernandez
Sobre o autor
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".