sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A morte do ator e o “Velho Chico”



Por Katiúcia Ribeiro

"Minha mãe mora às margens do Rio São Francisco; não houve um dia sequer, que não pedi licença para entrar no mesmo. As senhoras que moram na região, à sua beira (duas lindas com mais de 90 anos, me explicaram que esse apelido, Velho Chico, como carinhosamente é chamado, refere-se às histórias sagradas que rondam esse mais velho; e assim o rio é tratado, “como mais velho”...
Os moradores respeitam sua antiguidade, aprendida com os povos indígenas e atravessadas pelos povos africanos. E acrescentaram:

'Minha filha, tem mais coisas que não podemos contar, são mistérios dele mesmo. Eu compreendi e me calei. O mal é brincar com ritualidades ancestrais, que estão além de nossa capacidade de compreensão. Trazer à cena rituais secretos e folclorizar o sagrado, na busca de audiência, sem ao menos se preocupar em pedir permissão. E saber que o sagrado é segredo!

Os rituais nas águas são umas das maiores ações espirituais dos indígenas. O Rio São Francisco, é um dos alimentos mais sagrados dessas ritualísticas, sem contar a força das águas doces, encantadas pelo mel dos ancestrais africanos, que aqui chegaram.
O folhetim do horário nobre invade a região, folcloriza saberes, introduz inverdades, muda a rotina da cidade, lucra milhões e nem ao menos se preocupa em pedir licença à quem há muito tempo, cuida desse mais velho.

E para que? Para distorcer a história e reforçar alienações... Seu protagonista galã, foi banhar-se após as gravações e foi sugado pela força ancestral que mora ali. É triste, e não se trata de ignorar a perda de uma vida, tão sagrada à ancestralidade, mas sim refletir a falta de limite e sensibilidade humana, na busca do que se quer. De onde eu venho, sabemos que o respeito evita ações como essa: jamais entre na casa de alguém sem conhecer a história e pedir licença! Você pode não ter uma boa recepção, respeite o espaço que não é seu, para ser bem tratado. É preciso refletir e fazer isso, mexe com nossos próprios valores. Invasões não são e nunca foram toleradas. É chegada a hora de entender isso.

Realmente, o Ocidente precisa aprender com os indígenas e com os Povos Africanos, o respeito preciso com as forças vitais que regem o universo.

Título original:
REFLEXÕES SOBRE VELHO CHICO
Foto enviada Glad Lira, correspondente do site Sem medo da verdade
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