sábado, 7 de janeiro de 2017

O perfeito idiota de classe média brasileiro


A meca do PICMB
Por Adriano Silva

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se 

puder, atrapalha o trabalho de quem pega no pesado. Aprendi isso em criança: só enfia o 

pé na lama com gosto quem nunca teve o desgosto de ir para o tanque na área de 

serviço, depois, esfregar o tênis ou a chuteira debaixo de água fria. Só deixa um resto de 

bebida secar no fundo de um copo quem nunca teve que fazer o malabarismo de meter a 

mão lá dentro com uma esponja, com a barriga encostada na pia, para tentar lavá-lo.

Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, que vem sendo reproduzida aqui na colônia 

desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nas costas, a toilete dos seus 

proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as 

costas, formando listras que lembravam a pelagem do animal. O perfeito idiota de classe 

média brasileiro, ou PICMB, não ajuda em casa também por influência da mamãe, que 

nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo por ou tirar uma mesa, nem 

mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer 

lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e 

inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz 

nenhuma questão de mudar. O PICMB é um especialista em não fazer, em fazer de conta, 

em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. 

Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não 

reconhece obrigações e que adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – 

transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do perfeito idiota de classe média brasileiro vale mais que o das demais 

pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona 

em vaga para deficientes ou para idosos no shopping. É o casal que atrasa uma hora num 

jantar com os amigos. A lei e as regras só valem para os outros. O PICMB não aceita 

restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor 

que todos os outros. É um adepto do vale tudo social, do cada um por si e do seja o que 

deus quiser. Ele só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os 

seus.

O PICMB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse 

alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, 

gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma 

lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo 

entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação 

também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si 

mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PICMB 

adora isso.

O perfeito idiota de classe média brasileiro vai para Orlando sempre que pode. Seu 

templo, seu centro de peregrinação, é um outlet na Flórida. Acha a Europa chata. E a 

Ásia, um planeta esquisito com gente estranha e amarela que não lhe interessa. Há um 

tempo, o PICMB descobriu Nova York – para onde vai exclusivamente para comprar. 

Ficou meia hora dentro do Metropolitan, uma vez, mas achou aquilo aborrecido demais. 

Come pizza no Sbarro. Joga lixo no chão. Só anda de táxi – metrô, com a galera, nem em 

Manhattan. Nos anos 90, comprava camiseta no Hard Rock Cafe. Hoje virou um sacoleiro 

em lojas com Abercrombie & Fitch e Tommy Hillfiger. Depois de toda a farra, ainda troca 

cotoveladas no free shop para comprar uísque, perfume, chocolate e maquiagem. O 

PICMB é, sobretudo, um cara cafona. Usa roupas de polo sem saber o lado por onde se 

monta num cavalo. Nem sabe que aquelas roupas são de polo. Ou que polo é um esporte.

O PICMB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo 

de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso” e “veja 

o quanto eu paguei nesse relógio ou nessa calça da Diesel”. Ele exibe marcas como 

penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, 

deixaria as etiquetas presas aos itens do vestuário e aos acessórios que carrega. O 

PICMB é jeca. É brega. Compra para se afirmar, para compensar o vazio e as 

frustrações, para se expressar de algum modo. O perfeito idiota de classe média 

brasileiro não se sente idiota pagando 4 000 reais por um console de vídeo game que 

custa 400 dólares lá fora. Nem acha um acinte pagar 100 000 reais por um carro que vale 

25 000 dólares. Essa é a sua religião. Ele não se importa de ficar no vermelho – a 

preocupação com ter as contas em dias é para os fracos. Ele é o protótipo do novo rico 

burro. Do sujeito que acha que o bolso cheio pode compensar uma cabeça vazia.

O PICMB é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, 

lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de 

perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer amostra de produto que esteja 

sendo ofertada numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O 

PICMB adora boca livre e hotéis “all inclusive”. Ele adora camarote – quando ele 

consegue sentir o sangue azul fluindo em suas veias. Ele é a tradução perfeito do que é 

um pequeno burguês.

O perfeito idiota de classe média brasileiro entende Annita. Vibra com Latino. Seu mundo 

cabe dentro do imaginário do sertanejo romântico. Ele adora shows megaproduzidos, 

com pirotecnia, luzes e muita coreografia, cujos ingressos custem mais de 500 reais – 

mesmo que ele não conheça o artista. Ele não se importa de pagar uma taxa de 

conveniência escorchante para comprar esse ingresso da maneira mais barata para 

quem lhe vendeu – pela internet.

E o PICMB detesta ler. Comprou “50 Tons” para a mulher. E um livro de autoajuda para si 

mesmo. Mas agora que a novela está boa ficou difícil achar tempo para ler.

Postado originalmente no Executivo Sincero

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O Perfeito Idiota de Classe Média Brasileiro – Parte 2 >>>

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